CVV e eu

A minha história com o CVV – Centro de Valorização da Vida começou quando, próximo ao natal de 1999, eu, então com 12 anos, vi uma propaganda que me tocou bastante. Era uma moça olhando o mar quando, de repente, levanta-se e ia em direção a ele, abandonando suas coisas pelo caminho e finalmente sumindo em sua imensidão. Terminava com a frase:

“A solidão pode dar um rumo inesperado para sua vida”.

Para quem não conhece, o CVV é uma ONG sem fins lucrativos e sem ligação política ou religiosa que tem como objetivo a prevenção do suicídio (que, para quem não sabe, ocupa o 10º. lugar em causas de mortes no mundo).

O CVV sempre esteve presente na minha vida de uma maneira ou de outra. Muitas vezes preenchi o formulário para o voluntariado, porém nunca levava adiante. Mas, como podemos fugir mas não podemos nos esconder do que nos pertence, uma série de acontecimentos me levaram finalmente ao primeiro curso do CVV que, coincidência ou não, foi na própria cidade em que moro.

A minha ida ao primeiro curso do CVV me fez ter vontade de fazer as pessoas entenderem um pouco mais o que é a depressão, o que é sentir-se solitário e o que é esse vazio que forte abraça. Resolvi fazer isto por meio de músicas, e a primeira escolhida é da banda James e chama-se “Sit Down” (Sente-se). Colocarei a tradução para que todos possam entender.

Eu canto pra dormir
Uma canção da hora mais negra
Segredos que não posso manter
Dentro do dia
Mudando do êxtase à depressão
Extremos do doce e do amargo
Espero que Deus exista
Eu espero e rezo por isso

Arrastado pela correnteza
Minha vida está fora de controle
Acredito que essa onda me sustentará
Então deixo fluir

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Agora estou aliviado em ouvir
Que você esteve em alguns lugares distantes
É difícil continuar
Quando nos sentimos tão sozinhos
Agora estou entre extremos de novo
É pior do que foi antes
Se eu não tivesse visto tantas riquezas
Poderia viver com o fato de ser pobre
Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Aqueles que sentem o cheiro da tristeza
Sentem-se perto de mim
Aqueles que acreditam ser um pouco loucos
Sentem-se perto de mim
Aqueles que se acham ridículos
Sentem-se perto de mim
Com amor, com medo, com ódio, com lágrimas

Sente-se
Sente-se

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Sente-se

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Você acreditaria?

É difícil saber quando alguém fala a verdade, não é mesmo? Até mesmo porque palavras são apenas palavras, e podem ser mudadas a qualquer momento.

Este post é sobre um político não conseguiu convencer ninguém de algo que, caso fosse bem sucedido, mudaria o rumo da própria vida.

Budd Dwyer

Budd Dwyer

O nome da pessoa é Budd Dwyer. Ele foi um político americano que foi acusado, em 1986, de receber ilegalmente a quantia de 300 mil dólares. Pulando a parte que envolve política e nomes complicados, deram-lhe duas opções:

(I) Confessar publicamente, assumindo, portanto, a culpa, e pegar 5 anos de prisão; ou,
(II) Tentar a própria defesa, e, em caso de falha, pegar uma pena de 55 anos e ter que devolver os 300 mil dólares.

Como as expectativas não eram das melhores, Budd Dwyer tomou uma decisão bem drástica. Um dia antes de anunciarem sua sentença, e já esperando ser condenado, uma vez que  o juiz do caso era conhecido como ‘durão’, Budd Dwyer convocou uma entrevista coletiva.

Dizem que nesse dia estava nevando muito, e todos estavam em casa. A entrevista foi mais ou menos no horário do almoço, e todos assistiam, inclusive crianças.

Então, Budd fez um discurso e entregou três envelopes: um, para um político, outro, uma carta sobre ser doador de órgãos, e o último, uma carta para sua esposa. Então, pegou um último envelope, que continha uma arma. Pegou-a, mirou contra a própria cabeça e tirou sua vida em rede nacional, ao vivo.

O vídeo, para quem quiser conferir, está no link a seguir. Bom, se quiserem dar play, é pela própria conta e risco de vocês! Vejam AQUI (cenas fortes).

É difícil dizer algo, não? Será que se algum político brasileiro fosse acusado de corrupção e negasse, nós iríamos acreditar? O que vocês pensam sobre isso?

“A política não é uma ciência exata.” – Bismarck

Fé Cega

Vocês sabem quem foi Jim Jones? Ele foi o fundador e líder de uma seita/igreja que acabou com o suicídio/assassinato de mais de 900 pessoas em novembro de 1978.
Jim Jones

Jim Jones

Jim Jones coordenou esse suicídio em massa, conhecido como o Massacre de Jonestown (Jonestown fica na Guiana, nossa vizinha de cima). O suicídio carregava a promessa de uma vida melhor, em um lugar melhor, com pessoas melhores.

“Morram com alguma dignidade. Não morram em lágrimas e agonia. A morte é só mais uma passagem para outro plano.” – Jim Jones

Jim Jones nasceu nos Estados Unidos, e em 1959, criou a igreja chamada de “Templo dos Povos“. Ele queria acabar com a segregação racial em lugares públicos, e foi até bem sucedido nesse aspecto. Mais tarde, ele começou a incentivar a adoção de crianças de raças diferentes pelos integrantes do Templo dos Povos.
 
jim jones crianças

Até aqui, nada de mais. Mas em 1973, algumas pessoas saíram da Igreja e começaram as denúncias sobre a história de suicídio coletivo e até mesmo simulação para tal. De repente, tudo veio à tona: acusações de sequestro de filhos de pessoas que tinham abandonado a seita, separação a qualquer custo dos membros do Templo de suas famílias, torturas físicas e psicológicas, privação de sono, de alimentos, e muitas, muitas outras coisas.

O estopim para o suicídio coletivo foi quando o político norte-americano Leo Ryan foi até Jonestown para investigar rumores de abuso por Jim Jones. Super resumo: uma ex integrante da Igreja, alguns repórteres e o próprio Leo Ryan foram assassinados por quem fazia a segurança de Jim Jones.

Quando chegou essa notícia do assassinato, o suicídio coletivo, que já havia sido ensaiado algumas vezes, foi colocado em prática. As pessoas foram orientadas a primeiramente darem o veneno às crianças e depois tomarem. Jim Jones foi encontrado com um tiro na cabeça.

 
Imagens do suicídio em massa:
 
Corpses from the Jonestown Massacre of 1978

jim_jones suicidio coletivo 2

jonestown-massacre

O saldo daquela noite foi igual a 918 mortos, dentre eles, 270 crianças. E em poucos minutos, ocorria o maior suicídio em massa da história.
 

A pergunta que fica é: quão diferente Jim Jones é de muitos que vemos por aí, pedindo dinheiro em troca de perdão, aproveitando-se da ingenuidade das pessoas para construir o próprio patrimônio (oi Edir Macedo)?

 

“O fanatismo é mais perigoso que o ateísmo e mil vezes mais prejudicial, pois este não inspira paixões sanguinárias, enquanto que aquele pode levar à prática de crimes.” – Voltaire
Há vários documentários sobre o assunto no youtube. Clique aqui e escolha um. Vale a pena assistir!

Suicídio – Quando alguém escolhe ir embora

Pessoal, agora temos esta nova categoria no blog. Chama-se “Aprendendo sobre…” e será postada todos os sábados.

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A frase principal do site, que aparece logo abaixo do título (“Ninguém é sozinho neste mundo. Temos que coexistir e cuidar uns dos outros”), pertence ao geólogo Azusa Hayano. É a última frase que ele diz em um documentário sobre a floresta Aokigahara, no Japão, local frequentemente procurado por pessoas que pretendem tirar a própria vida.

Floresta Aokigahara

Floresta Aokigahara – Fonte

Para quem não sabe, a taxa de suicídio no Japão é a mais alta do mundo. Talvez pelo fato de eles serem muito rígidos em vários aspectos – inclusive e principalmente consigo mesmo -, ou quem sabe possa ter algo a ver com aquela história do suicídio honroso dos samurais (no qual eles enfiavam uma faca no estômago), mas o ponto é que lá morre muita gente em consequência disso.

A floresta que existe no Japão, chamada de Aokigahara, ou “Sea of Trees” (Mar de Árvores), fica na base do Monte Fuji. A vegetação é bem densa, e quase não entra luz solar. Esta floresta é o local onde acontecem muitos suicídios no Japão; as pessoas frequentemente vão pra lá e se enforcam. Imagens da floresta:

Aokigahara_Forest 2

Corpo já em decomposição

Restos de alguém que acampou na floresta (não sabemos o destino desta pessoa)

Restos de alguém que acampou na floresta (não sabemos que destino teve esta pessoa) – Fonte

Muitas dessas pessoas, antes de se suicidarem, passam dias acampadas na floresta. Ficam colocando os pensamentos em ordem para, finalmente, tomarem a decisão final (de cometer ou não o suicídio).

Uma curiosidade é que, em lugares com alto índice de suicídios, como esta floresta no Japão e a própria Golden Gate, nos EUA, há vários avisos pedindo para os suicidas repensarem, voltarem atrás. Aliás, uma das pessoas que saltarem da Golden Gate foi Roy Raymond, o criador da marca Victoria’s Secret, em 1993.

golden gate warningTradução: Terapia de crise/ Existe esperança/ Faça a ligação/ As consequências de pular dessa ponte são trágicas e fatais.

Aokigahara-forest- warningTradução:  A sua vida é um presente valioso de seus pais/ Por favor, pense em seus pais, irmãos e filhos/ Não guarde isto com você, converse sobre seus problemas/ E então está escrito para contatar a Associação de Prevenção ao Suicídio.

Essa questão toda de suicídio é muito complicada. Não acho que seja culpa da pessoa, ou que quem faça isso seja egoísta, que não pensa em família e todas essas outras besteiras que algumas pessoas insistem em dizer. Acredito que quem chega ao ponto de cometer suicídio só quer pôr um fim e acabar logo com tudo.

Mas, como nenhum homem é uma ilha, a gente não morre sozinho. Ninguém vai embora sem deixar marcas. Marcas estas que não, não vão embora, e que serão lembradas todo aniversário que passar em branco, todo natal que não terá mais toda família reunida, toda vez que passar aquele filme que a pessoa gostava, que tocar aquela música, que tiver aquele prato.

Floresta Aokigahara

Floresta Aokigahara – Fonte

Aqui no Brasil, morre uma pessoa por hora em consequência do suicídio. Existe uma organização sem fins lucrativos chamada CVV – Centro de Valorização da Vida que atua para a prevenção de suicídios. Quem trabalha lá é voluntário, a pessoa recebe um treinamento sobre como agir, o que falar, etc, e ficam à disposição de quem quer falar.

O atendimento é feito pessoalmente (em postos espalhados pelo Brasil), por telefone, por e-mail ou por chat, e eles funcionam 24h por dia. Aliás, aqui no Brasil, o serviço que a CVV presta é reconhecido como utilidade pública, pelo Ministério da Saúde!

Tem uma propaganda deles que fala justamente sobre essa questão de não morrer sozinho. É bem curtinha, vale muito a pena assistir:

O documentário que eu falei sobre o Japão, está logo a seguir. Está legendado em inglês, mas se você tem uma pequena base, dá pra entender.

Lá pelo 1 minuto e 50 segundos aparece um carro abandonado antes da entrada da floresta, provavelmente de alguém que foi até lá tirar a própria vida.

Floresta Aokigahara, aos pés do Monte Fuji

Floresta Aokigahara, aos pés do Monte Fuji

Todo mundo já se sentiu sozinho. O problema é que nós estamos tão preocupados com a nossa própria solidão que esquecemos justamente que o mundo é repleto de outros solitários. Todos estão dispostos a receber atenção, um abraço amigo, respeito, mas ninguém está disposto a estender a mão. E nessa história de nos trancarmos em um quarto esperando que alguém abra a porta e nos libere de nós mesmos, o mundo segue repleto de pessoas que, assim como nós, também se fecham, também choram, também pedem silenciosamente por ajuda.

No mundo todo, são mais de 10 milhões de tentativas de suicídios por ano, sendo que mais de um milhão dessas pessoas são ‘bem sucedidas’. Hoje, o suicídio ocupa o décimo lugar nas causas de morte no mundo. E assim o mundo segue, com muitos quartos e portas fechadas, com as pessoas superestimando a própria solidão enquanto subestimam a alheia. Porque afinal de contas, o nosso fardo é sempre mais pesado para carregar, não é mesmo?

Para concluir o post, a frase completa do Azusa Hayano, o geólogo do documentário do Japão:

“Você pensa que morre sozinho, mas isso não é verdade.
Ninguém é sozinho neste mundo. Nós temos que
coexistir e cuidar um dos outros” – Azusa Hayano