O paraíso ao seu lado e o inferno dentro de você

Frequentemente somos cobrados para escolher um lado: o bom ou o mau, o céu ou o inferno, a vida luminosa ou a sombria. Mas somos nós seres binários? Será a vida um eterno preto no branco, sem meio termo?

VITO MENSHIKOV

“Ambivalence” (Vito Menshikov)

Confesso que gostaria que fosse. Gostaria de poder escolher claramente o caminho a seguir, as pessoas com quem estar. Gostaria que as decisões fossem simples e as escolhas claras.

Mas não são.

Neste nosso mundo maniqueísta, sentimo-nos constantemente na obrigação de escolher um lado e de nos cercar de certezas. Acabamos assumindo uma postura que não é nossa, não é o que queremos, não é o que esperamos, não é o que somos.

Os dias passam e nos transformamos cada vez mais no que achamos que deveríamos ser, no que achamos que esperam de nós, no que achamos que temos que fazer para cumprir as expectativas. Quando percebemos, vemos que, mais do que expectativas dos outros, são expectativas que acreditamos que os outros tenham. E este é um caminho perigoso.

Mas, assim é nossa vida: uma aparentemente forte estrutura com robustos alicerces construída sobre um castelo de cartas.

“Nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo” – Hermann Hesse (trecho de “Demian”)

Título retirado desta música aqui:

 

 

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Mudanças internas

​A gente só muda de verdade quando percebe que não há outra opção se não mudar.

Só muda quando o espaço fica pequeno, quando o assunto acaba, quando as luzes se apagam e você sabe que precisa ir embora.

Muda por uma imposição da vida, que chega e diz: “isto não faz mais parte de você e você não pertence mais a este lugar”.

Não muda por achar que deve mudar.
Não muda por ter a impressão de que deve mudar.
Não muda simplesmente por querer mudar.

A mudança é uma consequência, e não a causa; é o fim, e não o meio.

A mudança, portanto, não é uma escolha.

“Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso.” (Demian – Hermann Hesse)

Sobre os reais motivos

Em linhas – BEM – gerais, nossa vida nada mais é do que uma sucessão de tomadas de decisões que nos levam aos mais diferentes caminhos. Mas, na realidade, quais dessas decisões são tomadas pensando em nós mesmos? E quais são apenas uma consequência do medo da mudança, das opiniões alheias e do conservadorismo cego?

Sem título

Existe algo que nos impede de mudar mesmo quando a situação presente não é favorável. Uma corrente que nos segura, uma gaiola que nos prende, uma porta trancada que nos impede de escapar. E todas invisíveis. Nenhuma delas está lá.

Mesmo quando determinada situação já não nos faz mais bem, continuamos amarrados ao que costumava ser, ao que poderia ter sido, ao que era para ser. Não vemos que, na realidade, já não é mais, nunca será, e, certamente, nunca teria sido.

No íntimo, todos sabemos quais são os reais motivos que nos prendem a situações, pessoas e lugares, e nenhum deles está do lado de fora. Não existem culpados – apenas uma sucessão de fatos, de circunstâncias, de mudanças. De vida.

“Todo mundo age não apenas movido por compulsão externa, mas também por necessidade íntima”. – Einstein

Senso comum do que é ser feliz: tome cuidado

Artista: Paula Layton

Artista: Paula Layton

Uma das perguntas que mais martelam na minha cabeça é: “O que me faz feliz?“. Existem algumas respostas que são senso comum, como ser feliz no trabalho, ganhar bem, ter uma família, uma vida estável, etc. Mas o que de verdade te faz feliz?

Hoje em dia é comum não conseguirmos separar com muita clareza o que é felicidade para nós e o que a sociedade nos empurra como felicidade. Por que é que a gente tem que aceitar um certo trabalho e não o outro só porque o primeiro tem um salário melhor? Por que é que temos que querer constituir uma família, por que é que temos que seguir alguns padrões de felicidade que nos são impostos?

Talvez você ainda não tenha descoberto, mas aqui vai: é provável que você chegue no topo do mundo e descubra que… seu lugar não é lá. De repente você vai ver que estava muito mais feliz quando ganhava menos, quando você ouvia os outros dizerem que “ainda não havia chegado onde deveria”. Talvez você veja que não tem aptidão para ser mãe, pai, e que não é simplesmente uma questão de tempo, como muitos dirão a você.

O ponto é que cada um de nós é um ser único com vontades e desejos próprios. Quando você resolve seguir o “plano de felicidade” que o senso comum nos fornece, pode até ser que ele dê certo, mas há chances também de dar errado. Isso porque a resposta para “O que te faz feliz?” deverá partir de dentro para fora, e nunca o contrário. A verdade reside dentro de você.

“A sabedoria só existe na verdade.” – Goethe

Liberte-se do passado

Artista: Cameron Holmes Nome da obra: "Fantasmas do Passado"

Artista: Cameron Holmes
Nome da obra: “Fantasmas do Passado”

É verdade que o passado faz parte de quem somos hoje. Erros e acertos fazem parte de nossas personalidades, de nossas experiências, de nossas vidas. E, justamente por fazer tão parte de nós, por ser tão parte do que nos torna nós mesmos, algumas pessoas simplesmente não conseguem se desapegar dele, transformando-o em culpa ou em eternas lamentações saudosistas.

Parece óbvio, mas saiba que o passado passou. Já não há mais nada que possa ser feito a respeito dele. Você pode tentar recriá-lo, consertá-lo, superá-lo – sim, você pode fazer isto -, porém, tudo que fará será no tempo presente. O passado continuará intacto.

Às vezes, é difícil deixar ir embora. É difícil esquecer e se libertar de um tempo em que éramos mais felizes do que somos hoje, mais bem sucedidos; de um tempo onde tínhamos mais amigos, mais lugares para ir e mais sorrisos para dar. É difícil. Porém, é necessário deixar essas vivências lá atrás, onde elas efetivamente pertencem. Caso contrário, você nunca conseguirá seguir adiante com novas – e, por que não, melhores – experiências, nunca conseguirá se desapegar das antigas companhias (e que não fazem mais parte da sua vida) para conhecer novas, nunca conseguirá colocar em prática um plano para ser bem sucedido se você sequer consegue dar chance para este plano florescer.

Além de tudo que foi dito, há ainda um agravante: a idealização. Tendemos a idealizar o que não podemos ter, lembrando apenas das partes boas e deixando as não tão boas guardadas bem na última gaveta, onde não temos acesso. Então, com medo de soltar as amarras e se desvincular do passado, afundamo-nos em ilusões de um tempo que, talvez, nem tenha sido assim tão bom. O receio de não sermos tão felizes quanto éramos no passado nos impede de sermos felizes em qualquer tempo.

“O passado sempre parece melhor do que foi, mas só é agradável porque não está presente” – Finley Peter Dunne