Categoria: “Envie sua Lição”

Existe, aqui no blog, a categoria “Envie sua Lição”. Divida conosco algo que tenha passado e que queira compartilhar, e então será publicado. A lição de hoje é a da Julia e seu título é “Como me livrei do desespero e me tornei uma pessoa de sucesso“.

Para saber mais, clique aqui.

“Bom, tudo começou há alguns anos atrás, mais precisamente há exatos dois anos, quando eu tinha 26 anos. Eu era uma mulher jovem cheia de sonhos, namorava, tinha vários amigos e trabalhava em uma loja. Não era o emprego dos meus sonhos, mas conseguia me manter. Nesse período já morava sozinha.
Após algum tempo morando fora de minha cidade natal recebo de um familiar meu a notícia de que minha tia estava muito doente, eu não conheci meu pai e minha mãe faleceu quando tinha apenas 12 anos de idade e minha tia passou a cuidar de mim desde então. Morávamos no interior e aos 19 anos fui pra cidade em busca de um emprego, morava com outra tia irmã de meu pai a qual não tinha um afeto muito grande. Mas era isso ou ter que voltar àquela vida pacata e sofrida do interior.
Após um ano, eu finalmente consegui um emprego em uma lanchonete em outro bairro da mesma cidade onde estava morando. Era uma alegria que não tinha tamanho, passei 8 meses trabalhando lá e comecei uma faculdade de recursos humanos. Não era bem o que queria, mas era a que conseguia pagar naquele momento. Dois meses depois saí do emprego, as coisas apertaram e tive que sair da faculdade.
Dois anos se passaram e eu não conseguia emprego, procurava de tudo e nada, quem iria dar um emprego para uma moça jovem sem especialização, sem experiência alguma? Pensei seriamente em voltar pro meu interior, mas com ajuda de meus amigos que me incentivaram e me ajudaram quando eu mais precisei, decidi passar mais um tempo por ali.
Uma amiga minha conseguiu uma vaga de emprego pra mim na loja em que ela trabalhava, eles estavam precisando de pessoas pra cuidar da limpeza e quando ela me propôs isso não pensei duas vezes antes de pegar a oportunidade. Após um ano e cinco meses me perguntaram se não queria ser uma atendente da loja, fiquei muito feliz com essa promoção. Acreditei que as coisas começariam a mudar a partir daquele momento.
Passaram-se quase três anos e ainda estava trabalhando lá, minha amiga já havia saído, estava em um emprego melhor, mas pra mim aquele era o melhor emprego do mundo. E em uma tarde de expediente recebo uma ligação, era Carlos um primo meu, filho da tia que me criou me dizendo que ela estava muito doente, já havia duas semanas que ela estava internada e a situação dela só piorava. Eu quase fico louca, comecei a chorar, entrei em desespero. O pessoa da loja não sabia o que estava acontecendo comigo e não conseguia nem respirar direito.
Passei mal e fui pro hospital, dois dias depois voltei pro interior onde já havia quase quatro anos que não andava por lá. Quando cheguei ao hospital e vi minha tia naquela situação novamente comecei a chorar e o desespero tomou conta de mim, nada conseguia me acalmar. Passei uma semana com minha tia, noite e dia, 24 horas. Já estava mais calma e consegui controlar um pouco as emoções. Minha tia teve uma grande melhora, todos estávamos contando com sua volta pra casa, quando em uma quarta-feira às 09 horas da manhã minha tia não acorda mais. Ela falecera aquele momento, naquela hora vi o mundo cair sobre mim, não entendia o por que daquilo estar acontecendo. Por que logo ela, uma pessoa tão boa?
A dor da perda foi muito grande, eu não me conformava que ela tinha partido, passava o dia chorando e desesperada com tudo aquilo. Eu cheguei ao ponto de não querer mais viver, tentei suicídio, já não sabia mais o que fazer, tomava remédios descontroladamente em excesso, e nem isso dava certo pra mim. Nada acontecia, nem pra morrer eu servia.
Depois de um tempo, fiquei meio depressiva e com ansiedade, não era uma depressão elevada, mas que conseguia acabar comigo. Eu estava sofrendo muito, emagreci bastante, não comia nada, não dormia, toda noite via minha tia em sonho. Enfim, esse foi o pior momento de toda minha vida. Quando meus amigos da cidade souberam da minha situação vieram até mim, eu já nem os conhecia mais, exceto minha melhor amiga, aquela que tinha me arranjado um emprego.
Eles conseguiram me levar pra cidade e eu comecei um intensivo tratamento; eles eram minha família agora. depois de quase seis meses de tratamento, fui me livrando da depressão e da ansiedade que tinha. Aos poucos fui voltando àquela jovem mulher de antes, e fui contornando toda a situação. Voltei novamente a trabalhar na loja, comecei a faculdade e me formei. Um ano depois era uma das gerentes da loja onde trabalhava.
Hoje, quase três anos do terrível acontecimento, sou casada, tenho um lindo filho, continuo trabalhando na mesma loja. Hoje posso dizer que conseguir vencer todas as barreiras da vida, e se eu não desisti foi por conta dos laços de amizades que construí lá atrás, bem no comecinho. Se não fosse pela ajuda de meus verdadeiros amigos, eu não estaria onde estou hoje. Provavelmente estaria no mesmo lugar onde se encontra minha querida e amada tia. Não tenho mais aquele sofrimento de antes, mas guardo sua lembrança dentro do meu coração.
E agora quero deixar uma mensagem pra você que esta lendo minha história. Durante anos passei por grandes sofrimentos e hoje me considero uma pessoa de sucesso, não ganho rios de dinheiro, mas sou feliz pelo que tenho, e pra mim isso é o que realmente importa – a felicidade.
Se você anda meio desanimado com sua vida, pare pra pensar e veja se você esta dando valor para as coisas que você tem, se você é um sonhador corra atrás e seus sonhos, não desista deles, faça verdadeiros amigos, acredite em si mesmo que um dia conseguirá realizar seu sonho.
Essa foi um pouco da minha vida até hoje, tentei resumir ao máximo pra não deixar muito longo. Espero que de alguma forma essa história tenha tocado você, e que a partir de hoje você mude sua mentalidade e corra atrás de seus sonhos.

Muito Obrigada a Todos!

Essa foi a história da Julia (Site: http://combateaansiedade.com). Muito obrigada por compartilhar, Julia!

 

 

 

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Querer querer

Queria poder querer querer algo. Não apenas querer. Gostaria de escolher o que querer. Escolher quais desejos ter, e quais sonhos sonhar.

Assim, poderia escolher os passos, delinear o caminho e ser, portanto, quem eu quisesse querer ser.

sequoia

Sequoia*

Mas isto não é possível. Não somos quem queremos querer ser. Somos quem somos; queremos o que queremos.

Seria mais fácil se os desejos e os sonhos e os impulsos fossem como plantas dentro de um vaso – bastaria regá-los para que crescessem, e abandoná-los para que morressem. Mas, na vida, acontece exatamente o oposto quando os abandonamos: eles crescem. Eles crescem dentro de um espaço pequeno, e quando finalmente encontram as paredes e o teto deste espaço, eles se tornam mais fortes. Querem sair.

Quando querem sair, uma linha é cruzada. E essa linha, uma vez cruzada, abre um novo e verdadeiro caminho – o caminho que o leva a si mesmo, aos seus próprios desejos, a quem você é.

Um feixe de consciência e lucidez é entregue em suas mãos. Negar isto é negar a si mesmo. E negar a si mesmo é sufocar-se. É suicídio lento.

“É difícil de se explicar, mas a verdade é que foi assim. Vi-me de repente livre das redes infernais que me aprisionavam, vi diante de mim novamente o mundo claro e risonho, e deixei de sentir os acessos de terror e as palpitações que me afogavam”

(Demian, Hermann Hesse)

 

 

*Sequoias são árvores gigantes, que podem chegar a 115 metros de altura e 12 metros de diâmetro. A mais antiga delas tem 4650 anos.

Nas sombras

Eu não quero ser aquela pessoa que nunca se perde.

Não quero ser quem vive na caixa, nas sombras, na segurança.

Eu não são sou essa pessoa. Eu ajo como essa pessoa e falo como essa pessoa, mas não sinto como essa pessoa.

E as pessoas que nunca se perdem, as que nunca se permitem, as que nunca cruzam a linha… essas não são as que me despertam interesse.

Atente-se, caro leitor, que não estamos falando de irresponsabilidade. Não se trata de sair desgovernadamente tomando qualquer atitude. Trata-se de algo mais simples e mais puro; trata-se de algo que se relaciona à essência do viver, do querer, do ser.

O que nos é perfeito não é parâmetro. Não pode ser. Não deve ser. A calmaria e a linearidade não nos fazem bem quando não nos pertencem.

Percebi que as pessoas que despertavam minha admiração não eram as que viviam em caixas. Elas estavam do lado de fora de suas caixas. Algumas, nem caixas possuíam. Mas aqui estava eu: tentando me manter dentro da caixa. Pior ainda: tentando construir uma caixa para me manter dentro dela.

Como a caixa não faz parte de mim, e eu não tenho aptidão para construí-la, vivo nas sombras. Nas sombras das caixas dos outros; nas sombras daquilo que não me atrai. Não posso mais viver assim. Não quero mais viver assim.

Mas, hoje, algo está diferente: o não poder e não querer não estão associados ao fim, ao desejo de morte. Pelo contrário. Há mais vida do que morte.

Eu sou mais vida do que morte.

“Eu queria roubar algo que já era meu”
(trecho de ‘Night time made us’, The Pastels)

Assistam este vídeo de Gilles Deleuze: https://www.youtube.com/watch?v=kxShsYKn7Xo

A depressão, eu, e eu com depressão

Sempre fui uma pessoa ansiosa e sempre fui uma pessoa com pensamentos depressivos. Tinha umas crises de choro ocasionalmente, e com certa frequência me sentia sem esperança e perdida. Mas como em geral levava uma “vida boa” e tinha momentos felizes, achei que essas características eram apenas mais uma parte da minha personalidade.

Com o passar dos dias, meses e anos, as crises foram piorando gradativamente, e na mesma proporção eu me convencia de que era minha personalidade. Eu era assim. Eu era uma pessoa pra baixo.

Nowhere David Asch

Nowhere, David Asch

Até que, em um determinado momento, eu comecei a diminuir o contato com amigos. Não saía mais, até chegar ao ponto de cessar este contato quase por completo, faltando inclusive em aniversários de pessoas queridas. Mas, como ainda conseguia seguir com pontos da minha vida como, por exemplo, continuar trabalhando, achei que fosse apenas uma fase um pouco mais isolada.

Até que, depois de uma vida inteira alternando entre “sou assim mesmo” e “é apenas uma fase”, tive uma crise de choro a caminho do trabalho. Voltei para casa e, diante de tanto choro e tremedeira e outros sintomas, passei no pronto atendimento.

Fui medicada com um calmante ali na hora. No mesmo dia, consegui marcar psiquiatra.

Crises de choro, isolamento, apatia pela vida, falta de vontade de fazer as coisas que antes me eram prazerosas, alteração no sono, alteração no apetite, irritabilidade, ansiedade, entre outros sintomas – fui diagnosticada com depressão.

Por um lado, vejo como um certo alívio estar sendo medicada, pois alimento a esperança de que amanhã estarei bem. Talvez não amanhã, mas depois de amanhã. Talvez demore um pouco mais. Mas parte de mim acredita que, algum dia, estarei bem. Estarei feliz.

Ocean Blue Seascape Ian Barber

Ocean Blue Seascape, Ian Barber

No outro lado da história, vejo a mim mesma. Vejo a pessoa que sempre fui, que sempre reconheci, que sempre esteve comigo. Vejo quem me acompanhou a vida toda e quem ainda está dentro de mim. E me vejo matando essa pessoa com esses remédios. Vejo essa pessoa sendo sufocada por uma nova personalidade que eu não conheço, que eu talvez não goste, que eu talvez não seja; vejo essa pessoa morrendo e dando espaço a alguém novo, a alguém vazio, a alguém que age como uma pessoa que eu nunca quis ser.

Ao mesmo tempo, vejo que essa pessoa que sou hoje não me faz bem. É quem sempre esteve comigo, mas é alguém que drena minhas energias. É alguém que me faz não querer ver meus amigos. É alguém que me faz ser estúpida com meu namorado. É alguém que afasta familiares que só querem me ajudar.

É alguém que me mantém refém de mim mesma, numa cama, no escuro. É alguém que tira de mim a vontade de sair, a vontade de ver pessoas, a vontade de comer. Alguém que me fez emagrecer sem que eu quisesse. Alguém que me fez perder a vontade de me arrumar.

Alguém que me roubou o prazer das coisas simples e que sempre gostei. Alguém que me fez questionar se vale a pena ou não viver e que tantas vezes sussurrou no meu ouvido um “Não”. E que ainda sussurra.

Anxiety Depression Saša Auguštanec

Axiety/Depression, Saša Auguštanec

Você talvez esteja se perguntando: “se é algo que te transforma em alguém com essas características, por que você a continua alimentando? Por que a deixou crescer a este ponto?”.

A resposta é: não sei. Mas sei que ela não chegou do nada. Foi se aproximando sorrateiramente. Começou aos poucos, começou se mascarando na personalidade, começou se misturando com as mudanças da adolescência, depois da vida adulta e, quando vi, já estava maior do que eu. Já era quem eu era. Já me definia.

Hoje me enxergo tentando me equilibrar no alto de uma montanha, cujo caminho é bem estreito. Se eu cair, de um lado, tenho essa nova pessoa. Essa que está sendo tratada e que é desconhecida pra mim. Se eu escorrego e caio do outro lado, no entanto, vejo mais do mesmo. Mas, desta vez, um pouco pior, pois sinto que alguns caminhos não podem ser ignorados. Não posso voltar atrás. Eu sinto – e sei – que este é um caminho perigoso e que me cega. Faz com que eu tome decisões baseadas em sentimentos temporários que se mostram maiores que eu.

Quando eu não opto por nenhum lado e tento me manter equilibrada no alto da montanha, fico nesta penumbra entre os dois lados, esforçando-me para ser algo que ainda não sou, mas que reconheço ser melhor pra mim, enquanto luto contra quem sou. Contra quem sempre fui. Assim, ora nós três – quem eu devo ser, quem eu não posso ser e quem eu sou – estamos em harmonia, ora estamos em guerra. E é difícil viver assim, principalmente porque quando olho para cima, vejo todos tentando me salvar. Vejo médicos, vejo amigos, família, todos tentando de me puxar e me salvar desta situação. Todos tentando me salvar de mim mesma e eu sem saber se quero ser salva.

Eu não sei lidar com isso. Já deveria estar melhor. Tenho feito terapia, tenho tomado remédios. Não estou me sujeitando a situações estressantes. E não melhoro.

Todos tentam me ajudar, e isso me deixa pior. Sinto-me obrigada a melhorar como forma de demonstrar que reconheço o esforço deles. Não consigo. Tento fingir. Também não consigo.

Queria que todos entendessem que nada tem a ver com eles. São problemas meus. Nenhuma causa ou possível consequência é/foi ou será em virtude de nada que foi feito ou que não foi.

De certo modo, sabia que isso ia acontecer. Sabia que mais cedo ou mais tarde, o copo encheria. E, uma vez cheio e transbordando, não poderia mais ser ignorado. Uma hora eu não conseguiria mais fingir estar tudo bem. Uma hora eu não poderia mais forçar o sorriso. Uma hora não poderia mais mascarar.

O problema é que esse dia chegou e agora eu não sei o que fazer. Os dias estão cada vez mais cinzentos e eu me sinto cada vez mais pressionada a melhorar.

É uma bola de neve rolando desgovernadamente.

É a minha vida nesse momento.

Empty Life Ian Barber

Empty Life, Ian Barber

 

Depressão e Apatia

Do contrário que muitos pensam, um dos principais sintomas da depressão não é a tristeza que não vai embora, mas sim a apatia. A indiferença em relação à assuntos que antes eram de interesse do indivíduo é um dos primeiros sinais de alerta de que algo não anda bem.

van gogh

Old Man in Sorrow, Van Gogh

Uma pessoa que sempre foi vaidosa passa a não se importar tanto com a aparência, aquele futebol de todo domingo passa a não ter mais graça. Os lugares que antes interessavam não tem mais a mesma vida, os assuntos com os amigos se perdem em palavras sem sentido. Falta vontade, falta ânimo, falta impulso.

E, de repente, nada mais parece ter graça. Nada é interessante o suficiente. O que te levanta da cama não é o estímulo, mas o dever; não existe motivação, mas apenas uma série de obrigações.

Começa então a busca por um culpado: o trabalho, o relacionamento conjugal, as relações familiares. Os amigos.  Algo ou alguém precisa ser o culpado.

Procura-se em casa, procura-se no trabalho; procura-se nas situações, nos hábitos. Nada é encontrado. Passa-se a culpar a si mesmo.

Não se procura ajuda. Culpa-se a si mesmo. Culpa-se pela dor, culpa-se pelo isolamento. Culpa-se por não conseguir procurar ajuda e por não querer. Por achar que não se quer. Por não saber o que se quer.

Culpa, culpa, culpa, culpa e mais culpa.

 

“Era eu, esperando por mim; à esperança de algo mais.
Eu, me vendo desta vez, esperando por algo diferente”

Joy Division, New Dawn Fades

Sobre acostumar-se

A gente acostuma.

Acostuma a não ver os amigos porque eles moram longe. Acostuma a não telefonar para os pais porque chegou tarde. Acostuma a ver a família somente em festas específicas.

Acostuma com o trânsito. Acostuma com o barulho, acostuma com o caos. Acostuma a estar sempre com pressa, a comer sem mastigar, a ouvir sem escutar. Acostuma a não prestar atenção.

Acostuma a não sentir, acostuma a não ver; acostuma com o desdém, com o tratar mal, com a apatia.

E aí a gente se transforma.

A gente se transforma em quem desdenha, em quem trata mal; a gente se transforma sob o pretexto da adaptação, se transforma por achar que não há outra alternativa. A gente se transforma porque é mais fácil juntar-se ao inimigo do que combatê-lo.

A gente se transforma. E a gente se acostuma. E se transforma. E se acostuma.

Na ânsia de fazer parte de algo, distanciamo-nos um dos outros, distanciamo-nos de nós. Distanciamo-nos da essência, do sentido, da razão.

E, entre terapias para aceitar como (não) somos e comprimidos para mitigar o que somos, seguimos nossas vidas – nesse ciclo vicioso da adaptação a uma sociedade doente.

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Imagem retirada do Livro “Não apresse o rio (ele corre sozinho)” de Barry Stevens

 

 

 

Sobre 2016 e resoluções

Último dia do ano e, de praxe, dia de fazer resoluções. Dia de prometer ser mais organizado, ler mais livros, não procrastinar, cumprir horários. Dia de prometer praticar mais esportes, alimentar-se melhor, colocar as contas em dia. De prometer consumir menos. Viajar mais.

Dia de atrair amor, dinheiro, paz. De usar vermelho, amarelo, branco.

Mas, este ano, algo me engoliu. Algo que me amarrou à cadeira e disse: “desta vez não”.

Algo que me atravessou gritando que amanhã, primeiro dia de 2016, eu ainda serei eu, a mesma pessoa que sou hoje. E a pessoa que sou hoje não é a pessoa que eu quero ser, e nem a que eu sou.

Resolvi, então, que a resolução de hoje não é porque amanhã é outro ano, mas sim porque CHEGA.

Chega de atender expectativas alheias antes das próprias.
Chega de buscar justificativas após um “não”.
Chega de achar que é preciso parecer feliz o tempo todo.

Chega.

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“É preciso coragem para crescer e ser quem você realmente é” – E E Cummings

 

 

 

Jornadas eternas em avenidas douradas

A música acima entrou em minha vida e me tocou de maneira inesperada. A letra é, a princípio, apenas mais uma música romântica, mas eu nunca a vi apenas dessa maneira simplista. Entretanto, também nunca consegui expressar o que ela despertava em mim, até ouvir as palavras de um amigo meu sobre ela. Segue:

“Adorei a música, muito inspiradora e profunda (…) Ter um amor livre, incondicional, pelo prazer de amar…sem a recompensa. Acho que a vida tem o amor como propósito sabe, não o amor controlador e doentio, mas o amor puro. Pelo prazer de ter alguém perto, compartilhar os beijos, abraços, as mãos dadas, o silêncio, às vezes a tristeza…”

Minha resposta:

“Gostei muito da sua visão da música. Pra ser sincera, essas músicas extremamente românticas já não fazem mais parte do meu repertório, porém essa tem um tom diferente, né? E eu nunca tinha conseguido ver qual é esse tom, mas acho que agora que você explicitou em palavras, eu sinto que é exatamente isso que você disse mesmo. Não é o amor controlador e doentio, não é o amor que implica em posse, que é, de alguma forma, associado ao medo, à obrigação – é o amor pelo amor, o amar pelo amar, o querer estar por querer estar. É o querer bem simplesmente por querer, e não por querer a pessoa ao seu lado, amarrada à você, como parte integrante de quem você é e acreditando que você é essencial para ela.

Não somos parte de alguém e ninguém é parte de nós.

Não somos donos de ninguém e ninguém é nosso dono.

Somos começo, meio e fim; somos inteiros, não somos metade. Assim como todas as outras pessoas.”

Letra e tradução aqui.

O paraíso ao seu lado e o inferno dentro de você

Frequentemente somos cobrados para escolher um lado: o bom ou o mau, o céu ou o inferno, a vida luminosa ou a sombria. Mas somos nós seres binários? Será a vida um eterno preto no branco, sem meio termo?

VITO MENSHIKOV

“Ambivalence” (Vito Menshikov)

Confesso que gostaria que fosse. Gostaria de poder escolher claramente o caminho a seguir, as pessoas com quem estar. Gostaria que as decisões fossem simples e as escolhas claras.

Mas não são.

Neste nosso mundo maniqueísta, sentimo-nos constantemente na obrigação de escolher um lado e de nos cercar de certezas. Acabamos assumindo uma postura que não é nossa, não é o que queremos, não é o que esperamos, não é o que somos.

Os dias passam e nos transformamos cada vez mais no que achamos que deveríamos ser, no que achamos que esperam de nós, no que achamos que temos que fazer para cumprir as expectativas. Quando percebemos, vemos que, mais do que expectativas dos outros, são expectativas que acreditamos que os outros tenham. E este é um caminho perigoso.

Mas, assim é nossa vida: uma aparentemente forte estrutura com robustos alicerces construída sobre um castelo de cartas.

“Nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo” – Hermann Hesse (trecho de “Demian”)

Título retirado desta música aqui:

 

 

CVV e eu

A minha história com o CVV – Centro de Valorização da Vida começou quando, próximo ao natal de 1999, eu, então com 12 anos, vi uma propaganda que me tocou bastante. Era uma moça olhando o mar quando, de repente, levanta-se e ia em direção a ele, abandonando suas coisas pelo caminho e finalmente sumindo em sua imensidão. Terminava com a frase:

“A solidão pode dar um rumo inesperado para sua vida”.

Para quem não conhece, o CVV é uma ONG sem fins lucrativos e sem ligação política ou religiosa que tem como objetivo a prevenção do suicídio (que, para quem não sabe, ocupa o 10º. lugar em causas de mortes no mundo).

O CVV sempre esteve presente na minha vida de uma maneira ou de outra. Muitas vezes preenchi o formulário para o voluntariado, porém nunca levava adiante. Mas, como podemos fugir mas não podemos nos esconder do que nos pertence, uma série de acontecimentos me levaram finalmente ao primeiro curso do CVV que, coincidência ou não, foi na própria cidade em que moro.

A minha ida ao primeiro curso do CVV me fez ter vontade de fazer as pessoas entenderem um pouco mais o que é a depressão, o que é sentir-se solitário e o que é esse vazio que forte abraça. Resolvi fazer isto por meio de músicas, e a primeira escolhida é da banda James e chama-se “Sit Down” (Sente-se). Colocarei a tradução para que todos possam entender.

Eu canto pra dormir
Uma canção da hora mais negra
Segredos que não posso manter
Dentro do dia
Mudando do êxtase à depressão
Extremos do doce e do amargo
Espero que Deus exista
Eu espero e rezo por isso

Arrastado pela correnteza
Minha vida está fora de controle
Acredito que essa onda me sustentará
Então deixo fluir

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Agora estou aliviado em ouvir
Que você esteve em alguns lugares distantes
É difícil continuar
Quando nos sentimos tão sozinhos
Agora estou entre extremos de novo
É pior do que foi antes
Se eu não tivesse visto tantas riquezas
Poderia viver com o fato de ser pobre
Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Aqueles que sentem o cheiro da tristeza
Sentem-se perto de mim
Aqueles que acreditam ser um pouco loucos
Sentem-se perto de mim
Aqueles que se acham ridículos
Sentem-se perto de mim
Com amor, com medo, com ódio, com lágrimas

Sente-se
Sente-se

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Sente-se
Sente-se perto de mim
Sente-se
Por caridade

Sente-se